93 anos: Nelson Rosa e José Rodrigues ganham selos comemorativos dos Correios

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Em um emocionante evento na manhã desta segunda-feira (30), foram lançados os novos selos comemorativos dos Correios, reverenciando os 93 anos de Emancipação Política de Arapiraca, em mais uma parceria entre os dois ambientes públicos.

Um deles é em homenagem ao servidor da Prefeitura, José Rodrigues da Silva, e o outro, ao mestre Nelson Rosa, um dos maiores incentivadores do coco de roda do Brasil.

Na oportunidade, foram apresentadas as peças filatélicas com o rosto dos dois na presença de um público repleto de autoridades e familiares dos homenageados.

O superintendente dos Correios em Alagoas, Edmilson Bezerra, conduziu as obliterações convidando o prefeito Rogério Teófilo, a vice-prefeita Fabiana Pessoa, o deputado estadual Rodrigo Cunha e a presidente da Câmara, vereadora Profª Graça Lisboa, para fazerem os primeiros carimbos nos cartões postais que rodarão com os selos comemorativos por todo país.

Em seguida, o momento de maior emoção: foi a vez do filho de José Rodrigues, o empresário Rodrigo Silva, obliterar o selo e falar um pouco sobre este momento único. “A gente até perde o fôlego na hora de falar dele. Meu pai era sinônimo de trabalho e disposição. Não à toa, para se educar, ele saía a pé da Vila Aparecida para o bairro Baixão a fim de estudar na Escola Quintella Cavalcanti. Essa integridade, ele repassou para a gente. Por isso, ficamos muito honrados com essa homenagem”, diz.

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Já Regineide Rosa, filha do mestre Nelson, levou uma surpresa para todos e leu uma poesia matuta inédita feita pelo pai. “Essa movimentação muito nos deixa gratificados. Meu pai fez bastante pela cultura local e tinha prazer em dizer que era da Vila Fernandes e de Arapiraca, durante suas viagens pelo país. Com certeza, ele está feliz onde está por este reconhecimento. E nós também agradecemos”, pontua.

Segundo o prefeito Rogério Teófilo, isto simboliza o compromisso de valorizar quem é da terra. “E mostra o rosto do trabalho, da humildade e da honestidade arapiraquenses por todo o Brasil através dos postais. O 30 de Outubro representa muito isso. Ele é apenas um dia diante dos outros 364, que também são de conquistas. Mas conquistas diárias. É esse povo guerreiro e empreendedor que gere e gira a roda econômica do nosso município. Arapiraca é esse ambiente acolhedor hoje por conta do berço também criado aqui, com pessoas de muitas cidades vizinhas residindo e deixando aqui um pouco de seus sonhos. Temos muito caminho até o centenário, porém, com a certeza de um caminho pavimentado com amor pelo outro, ética e serenidade de seu povo”, conclui.

O evento ainda contou com a apresentação cultural do canto das destaladeiras de fumo – que percorreu o país com o mestre Nelson em mais de 200 apresentações pelo Sesc Sonora Brasil – e o grupo de coco de roda comandado por ele no Sítio Fernandes, zona rural de Arapiraca.

“Os dois homenageados deste ano abriam caminhos. Um, de forma literal, trabalhando com máquinas pesadas no campo. O outro, com as batidas de pé que o coco de roda abria nos salões e ao ar livre, deixando tudo de bom entrar. Por isso, a gente agradece a mais essa parceria com os Correios”, ressalta Teófilo.

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JOSÉ RODRIGUES DA SILVA

Brotado da Rua São João, no bairro Alto Cruzeiro, o pequeno José Rodrigues da Silva pouco sabia de seu futuro: seria um dos maiores desbravadores das terras rurais arapiraquenses.

E esse seu trajeto começou a ser impulsionado por seus pais, ambos agricultores, quando foram morar pouco depois na comunidade rural de Vila Aparecida.

Lá, em meio às lavouras de fumo da família – antes do auge do “ouro verde” em Arapiraca, que elevou a cidade na década de 1970 ao posto de “Capital Brasileira do Fumo” –, ele aprendeu a amar o campo, seus cheiros e seus horizontes espelhados.

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Por outro lado, a educação sempre foi prioridade em sua vida, o que acabou lhe levando a ser professor da Escola de Ensino Fundamental João Lúcio da Silva.

Pai de um casal, o servidor público formado em Direito e também empresário no setor de medicamentos Rodrigo José da Silva e a zootécnica Rafaela Maysa Rodrigues, ele sempre investiu nos estudos de seus filhos para que o futuro fosse feito no presente.

Atuou na Federação das Associações Comunitárias de Arapiraca (Facomar) e estava lotado recentemente na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Obras, como chefe das máquinas de obras.

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José Rodrigues abria caminhos de acesso, sobretudo, na zona rural para que os arapiraquenses pudessem ter uma qualidade de vida melhor nestas regiões mais periféricas e não menos importantes.

Casado por 30 anos com a servidora pública Quitéria Maria da Silva, que se foi em dezembro do ano passado, José Rodrigues havia acabado de se aposentar e faleceu no último mês de agosto com 60 anos de idade, exercendo seu ofício em cima de uma máquina, mais uma vez olhando para a imensidão verde do campo – o seu último avistamento.

NELSON VICENTE ROSA

E o samba de pagode ia ecoando e ecoando por entre as casas de taipa a serem erguidas. O cenário era a Vila Fernandes, zona rural de uma Arapiraca recém-emancipada; ambiente ideal para o nascimento de um verdadeiro mestre.

No final da década de 1930, aos 5 anos de idade, o garoto Nelson Vicente Rosa se encantou com aquele som mágico que impulsionava todos à dança, ao remelexo, à união. Era o canto dos trabalhadores.

Todos pisavam a terra para esta ser colocada nas estruturas daquelas casas simples, de um povo igualmente humilde.

Foi nesses moldes que ele encarou a vida: com muito trabalho e música. E quando ela invadiu em cheio seu peito, já era tarde demais: ele estava com seus pais em uma festa no Sítio Cacimba Doce e então ouviu a canção “Araúna” sendo proferida pela cantadora Maria Proteciano, vendo uma grande roda se formar. Aquele evento lhe marcou profundamente.

O samba de pagode era uma espécie de antecessor do coco de roda. Foi seu padrinho Gervásio Lima que o conquistou de vez, porque o coco e toda aquela dança agregavam, juntavam gente. Eram familiares, amigos, vizinhos, cunhados, irmãos e primos.

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Fazia-se então a roda, um dos ícones que nos leva aos nossos ancestrais em volta de uma fogueira, festejando, ritualizando, agradecendo a bonança que era a vida em comunidade, a vida no momento presente, sem tirar nem pôr.

A coisa foi crescendo e o seu Nelson Rosa virando referência máxima em Arapiraca. Não só por ser puxador de coco, mas pelos causos e histórias matutas que contava.

Virou poeta popular dos bons. Virou “inté” embolador. Virou Patrimônio Vivo da Cultura Alagoana, em 2005. Virou mestre da Cultura Popular Tradicional, em 2013, título concedido pela Prefeitura de Arapiraca. Virou um mito entre nós. Virou, ao lado de José Rodrigues, outro desbravador, selo dos Correios. Virou memória viva.

E por carregar tanta riqueza nas palavras, foi chamado para inúmeras aberturas de festivais e festas juninas Nordeste adentro e, no ano passado, acabou por viajar o país inteiro em mais de 200 apresentações dentro do projeto Sesc Sonora Brasil, com as destaladeiras de fumo que o acompanhavam há um bom tempo.

Falecido em setembro último com 83 anos, Nelson era mestre em todas as frentes. Mas sabia onde pisar. Afinal, o instrumento maior do coco de roda é o próprio chão.

A batida de pé seria a baqueta resvalando na caixa dos peitos da Mãe-Natureza. Chão. Ela deixou o som para ser extraído e a Rosa de Nelson, exalada por quem sabe sentir. Chão. Poeira no ar.

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