Dança de rua transforma vida de jovens no Cras Bebedouro

Eles se chamam reis e rainhas. Em comum, o amor e o prazer de dançar um gênero que parte da sociedade ainda não entende como expressão artística. Mas quem vê uma apresentação dos jovens que integram o grupo de dança de rua SDKQ logo muda de opinião. A sigla que dá nome à trupe, formada por mais de 20 jovens atendidos pela Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas), foi inspirada no idioma inglês, Street Dance Kings and Queens. Em português, Dança de Rua Reis e Rainhas.

O SDKQ integra o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos do Centro de Referência da Assistência Social (Cras Bebedouro) desde 2011. A unidade é um equipamento social da Semas. Os ensaios acontecem no local e são realizados na tarde das quintas-feiras, das 13h às 16h, quando os jovens repetem gestos e movimentos corporais complexos.

O diretor do grupo e coreógrafo, Leonardo Emiliano, 27 anos, conhecido pelos jovens como Léo, dedica-se ao ensaio do primeiro espetáculo de dança do SDKQ, Diversidades, que vai estrear nesta sexta-feira (28), em duas sessões, às 19h e 20h, no Teatro Linda Mascarenhas, no bairro do Farol.

Léo diz que o SDKQ surgiu em 2008, quando ele tinha 18 anos e estudava numa escola pública. Um projeto de artes que abordava o tema da exploração e do abuso sexual de crianças e adolescentes despertou o interesse de alguns alunos pela dança de rua para representar o problema social que virou crime pela legislação brasileira. O sucesso da apresentação e a motivação dos estudantes, professores e coordenação fez surgir o grupo de dança. Na época, a trupe recebia uma ajuda de custo através do Projeto Escola Aberta, que manteve o funcionamento da equipe de dançarinos até o fim do apoio financeiro.

Naquele período, Léo diz que o SDKQ se inspirava na cultura de rua norte-americana, sejam as músicas ou os clipes que a garotada via na televisão. Até que o grupo refletiu e se inquietou para não reproduzir os movimentos que eles viam os dançarinos estrangeiros realizarem e foi aí que nasceram as coreografias criadas por ele e os outros dançarinos.

Três anos depois, Léo procurou a coordenação do Cras Bebedouro e há exatos seis anos o SDKQ faz parte do Serviço de Convivência desta unidade da Semas. O coreógrafo diz que a parceria estimula os vínculos sociais e comunitários dos jovens na comunidade onde a maioria mora, a Chã de Bebedouro, e motiva todos eles a construir um projeto de vida. Assim, a dança passou a ser vista a partir de novos ângulos.

“A vinculação do grupo de dança à Semas é muito importante para todos os jovens do SDKQ porque a dança ampliou nossa visão para não só concebermos ela como uma expressão artística, como parte do entretenimento, mas também como expressão social e educativa”, diz o coreógrafo que em 2012 começou a estudar dança, habilitação em licenciatura na Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

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A técnica de referência do Serviço de Convivência do Cras Bebedouro, Marta Alves, diz que o grupo recebe apoio logístico como transporte e alimentação para ir até as apresentações quando surgem os convites para eventos organizados pela Semas ou por outras instituições públicas e particulares.

Vínculos sociais

Léo está prestes a se formar na graduação de dança, mas já é professor e coreógrafo da escola de Ballet do Sesi. Ele explica que a universidade fez com que essa visão da dança como expressão cultural e social voltada para a educação se ampliasse e o contato com a equipe técnica do Serviço de Convivência da Semas trouxe novas noções, como a construção de vínculos sociais dos jovens com suas respectivas famílias e com a comunidade onde vivem.

Há sete anos no SDKQ, Robert Maxwell, 20 anos, viu uma apresentação do grupo e desde então participa dos ensaios e performances. “Para mim, a dança proporciona o encontro do meu corpo físico com o meu corpo espiritual”, define o rei que pretende se profissionalizar como dançarino.

Outra integrante do SDQK é a rainha Gabryela Borges, 25 anos, estudante de Design da Ufal. Gaby, como é conhecida no grupo, viu uma performance (um solo) do  Leornardo durante um congresso acadêmico e teve a chance de participar de uma oficina de dança de rua com o coreógrafo.

“Sempre tive vontade de fazer dança de rua, dança urbana, mas não sabia que havia o movimento em Maceió e que existia um grupo na cidade onde eu pudesse ensaiar. Desde 2004 faço ballet clássico e dança contemporânea. Em 2015 comecei no SDKQ. Venho da Jatiúca para Bebedouro ensaiar porque para mim, a dança independe de qualquer barreira”, diz Gaby.

Os ensaios do grupo do SDKQ não param nem no fim de semana, já que alguns jovens não têm condições de participar das atividades nas tardes das quintas-feiras, aos sábados e domingos eles ensaiam no Ginásio Poliesportivo Luiz Pedro, que fica no bairro Petrópolis.

Cícero Rogério/ Ascom Semas

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